CACHAÇA NA FARMÁCIA
O Zinho é que é o farmacêutico formado, mas a farmácia pertence ao genro dele, o Juca do Seu Alberto da Estação. Entretanto, o boticário honorário, se não está pescando, caçando e et coetera (este et coetera é do que ele mais gosta e faz!), receita manipula drogas, faz curativos e até pequenas cirurgias. Enquanto isso o Zinho cria gado “gyr”, os famosos bois de cem contos... Em toda essa história, o que mais fascina a minha curiosidade de moleque é o jacaré de ferro de comprimir rolhas, existente na farmácia. Um dia o Zinho vende a farmácia para um certo Sr. Manoel e o Juca adquire um Ford 29, mas esse caminhão, que fica sendo o caminhão do Juca, faz parte de outra história que conto noutra parte. O Seu Manoel da Farmácia. Com sua numerosa e vasta prole e a esposa de alentadas formas, ocupa todo o prédio e suas adjacências. O novo boticário, ao contrário do Juca, cobra caro e não vende fiado. Em razão disso, meu estimado Pai, sempre cioso de sua responsabilidade, cautelosamente proíbe a todos em casa de adoecerem e ele próprio dá o salutar exemplo. Minha bondosa Mãe, igualmente ciente do perigo de uma doença inesperada, cataloga diversas plantas medicinais e várias panacéias e ainda, por medida de segurança, algumas orações, incumbindo-me de anotar tudo numa espécie de salvador vade mecum Velho é reabilitado, por recomendação do Juca, que o inclui no rol dos bons pagadores, quando passa o negócio ao Seu Manoel. Restaurado o crédito, meu Pai suspende a proibição imposta à família e readquirimos o direito de adoecermos novamente. O modus operandi do novo boticário, entretanto, suscita desleal concorrência dos outros comerciantes de secos e molhados (mais de molhados do que de secos), que passam a vender remédio nos seus armazéns. O Seu Manoel, porém, não dá o braço a torcer, engenhoso e sabido, encontra solução rendosa e prática, surpreendendo os seus desonestos concorrentes. Passa a vender cachaça na farmácia. Não assim, às escâncaras, mas jeitosa e camaleonicamente, com essências aromáticas, colorida, em frascos transparentes. Cachaça ninguém bebe que é feio e coisa de gente desclassificada. Toma-se, isto sim, canilla planofolia, a branquinha com essência de baunilha; licor de prumus armeniaca, aguardente com algumas gotas de damasco; calyptrantes aromatica, parati com cravo da terra e outras por aí afora. Nesse ramo, a freguesia do Seu Manoel aumenta de um pulo; a dos outros comerciantes, diminui. Estranho ainda é que ocorre uma vertiginosa queda nas doenças psíquico-somáticas do Arraial, antes tratadas com hipocráticas doses homeopáticas de estranhas e desconhecidas drogas sem nenhum efeito prático. Os hipocrazes do inteligente boticário erradicam, quase que por completo, essas doenças. Respeitáveis matronas, da não menos respeitável sociedade local, tomam do novo remédio, naturalmente em taças de cristal de acordo com a dignidade de todos. Saem da botica um tanto eufóricos, mas sãos feito coco, embora ligeiramente cambaleantes. Os concorrentes gritam. E como são da política dominante mandam os fiscais do governo fiscalizarem o Seu Manoel e os seus licores aromáticos. Mas se os fiscais são os olhos e os ouvidos do Governo, são também e antes de tudo, seus próprios narizes e goelas. Acabam apaixonados pelos irresistíveis aromas dos licores coloridos do Seu Manoel e cada qual leva algumas garrafas... para exames! E não voltam mais, nunca mais! Fica então o dito pelo não dito. Numa cumplicidade etílica, harmoniosa e pacífica, os comerciantes continuam vendendo remédio em seus armazéns e o Seu Manoel receitando cachaça em sua farmácia; perdão, calyptrantes aromatica... Manoel fica sendo o novo dono da farmácia e desde logo cognominado pelo povo do Arraial de o medicinal doméstico. Contudo, nem a desmedida cautela de meu Pai, nem o comprovado zelo materno e menos ainda as minhas claudicantes incursões pelo acidentado terreno da complexa e misteriosa ciência hipocrática são postos em prática. Dão em nada. Antes de qualquer emergência farmacêutica, o crédito do
O Zinho é que é o farmacêutico formado, mas a farmácia pertence ao genro dele, o Juca do Seu Alberto da Estação. Entretanto, o boticário honorário, se não está pescando, caçando e et coetera (este et coetera é do que ele mais gosta e faz!), receita manipula drogas, faz curativos e até pequenas cirurgias. Enquanto isso o Zinho cria gado “gyr”, os famosos bois de cem contos... Em toda essa história, o que mais fascina a minha curiosidade de moleque é o jacaré de ferro de comprimir rolhas, existente na farmácia. Um dia o Zinho vende a farmácia para um certo Sr. Manoel e o Juca adquire um Ford 29, mas esse caminhão, que fica sendo o caminhão do Juca, faz parte de outra história que conto noutra parte. O Seu Manoel da Farmácia. Com sua numerosa e vasta prole e a esposa de alentadas formas, ocupa todo o prédio e suas adjacências. O novo boticário, ao contrário do Juca, cobra caro e não vende fiado. Em razão disso, meu estimado Pai, sempre cioso de sua responsabilidade, cautelosamente proíbe a todos em casa de adoecerem e ele próprio dá o salutar exemplo. Minha bondosa Mãe, igualmente ciente do perigo de uma doença inesperada, cataloga diversas plantas medicinais e várias panacéias e ainda, por medida de segurança, algumas orações, incumbindo-me de anotar tudo numa espécie de salvador vade mecum Velho é reabilitado, por recomendação do Juca, que o inclui no rol dos bons pagadores, quando passa o negócio ao Seu Manoel. Restaurado o crédito, meu Pai suspende a proibição imposta à família e readquirimos o direito de adoecermos novamente. O modus operandi do novo boticário, entretanto, suscita desleal concorrência dos outros comerciantes de secos e molhados (mais de molhados do que de secos), que passam a vender remédio nos seus armazéns. O Seu Manoel, porém, não dá o braço a torcer, engenhoso e sabido, encontra solução rendosa e prática, surpreendendo os seus desonestos concorrentes. Passa a vender cachaça na farmácia. Não assim, às escâncaras, mas jeitosa e camaleonicamente, com essências aromáticas, colorida, em frascos transparentes. Cachaça ninguém bebe que é feio e coisa de gente desclassificada. Toma-se, isto sim, canilla planofolia, a branquinha com essência de baunilha; licor de prumus armeniaca, aguardente com algumas gotas de damasco; calyptrantes aromatica, parati com cravo da terra e outras por aí afora. Nesse ramo, a freguesia do Seu Manoel aumenta de um pulo; a dos outros comerciantes, diminui. Estranho ainda é que ocorre uma vertiginosa queda nas doenças psíquico-somáticas do Arraial, antes tratadas com hipocráticas doses homeopáticas de estranhas e desconhecidas drogas sem nenhum efeito prático. Os hipocrazes do inteligente boticário erradicam, quase que por completo, essas doenças. Respeitáveis matronas, da não menos respeitável sociedade local, tomam do novo remédio, naturalmente em taças de cristal de acordo com a dignidade de todos. Saem da botica um tanto eufóricos, mas sãos feito coco, embora ligeiramente cambaleantes. Os concorrentes gritam. E como são da política dominante mandam os fiscais do governo fiscalizarem o Seu Manoel e os seus licores aromáticos. Mas se os fiscais são os olhos e os ouvidos do Governo, são também e antes de tudo, seus próprios narizes e goelas. Acabam apaixonados pelos irresistíveis aromas dos licores coloridos do Seu Manoel e cada qual leva algumas garrafas... para exames! E não voltam mais, nunca mais! Fica então o dito pelo não dito. Numa cumplicidade etílica, harmoniosa e pacífica, os comerciantes continuam vendendo remédio em seus armazéns e o Seu Manoel receitando cachaça em sua farmácia; perdão, calyptrantes aromatica... Manoel fica sendo o novo dono da farmácia e desde logo cognominado pelo povo do Arraial de o medicinal doméstico. Contudo, nem a desmedida cautela de meu Pai, nem o comprovado zelo materno e menos ainda as minhas claudicantes incursões pelo acidentado terreno da complexa e misteriosa ciência hipocrática são postos em prática. Dão em nada. Antes de qualquer emergência farmacêutica, o crédito do
(Renato Mattosinhos - Do livro: "Cachaça na Farmácia - 2001)
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